Por Claudia Babo | Psicanalista
Nem toda doença começa na mente e nem todo sofrimento aparece nos exames de laboratório. No entanto, o ser humano nunca é apenas aquilo que um diagnóstico médico consegue revelar. Existe um espaço complexo entre os sintomas físicos e as dores da alma que a ciência, a psicologia e a espiritualidade tentam compreender.
Quando o corpo acusa o que a mente não consegue falar
Imagine a história de alguém que há meses sente que alguma coisa não está bem. Essa pessoa dorme mal, vive cansada, sofre com dores recorrentes, alterações no apetite e dificuldade de concentração. Ela procura ajuda médica, faz uma bateria de exames, consulta profissionais e, no final, escuta a frase: “Está tudo normal”.
Mas ela sabe que não está. Existe um sofrimento real que não desaparece simplesmente porque o resultado de um exame veio negativo. Por outro lado, também existem doenças físicas absolutamente reais que não podem ser reduzidas a um "problema emocional".
É justamente nesse espaço — entre o que o corpo apresenta, o que a mente experimenta e a história de vida do paciente — que precisamos ampliar o olhar sobre a saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a saúde não apenas como a ausência de doenças, mas como um estado de bem-estar físico, mental e social. Mais do que focar em "qual doença essa pessoa tem", a medicina integrativa nos convida a perguntar: "quem é essa pessoa que está vivendo essa doença?"
O que a ciência diz sobre a conexão entre corpo e mente
Durante muito tempo, a medicina operou sob uma divisão rígida: o corpo de um lado, a mente do outro. Hoje, a ciência da saúde reconhece que pensamentos, emoções, padrões de sono, alimentação e relações sociais participam de processos biológicos que envolvem diretamente os sistemas nervoso, endócrino e imunológico.
Isso não significa que as emoções sejam culpadas por todas as enfermidades, mas sim que o organismo inteiro responde ao que acontece dentro e fora de nós. O estresse crônico é o maior exemplo disso. De acordo com a OMS, o estresse é uma resposta humana natural diante de ameaças. Porém, em níveis prolongados, ele desencadeia problemas físicos como dores musculares, distúrbios gastrointestinais e insônia. Sentir não acontece apenas na cabeça; o corpo inteiro participa da experiência.
O estresse e a Psiconeuroimunologia
Quando enfrentamos uma situação de pressão, o organismo ativa hormônios e neurotransmissores para nos defender. O problema surge quando o corpo permanece em estado de alerta constante.
A psiconeuroimunologia é a área da ciência que estuda essas interações. Estudos recentes mostram como o estresse prolongado pode modificar as respostas imunológicas do organismo, variando de acordo com fatores genéticos e ambientais. Compreender isso nos ajuda a abandonar dois extremos perigosos: a ideia de que "é tudo psicológico" e o mito de que "o psicológico não afeta o corpo".
O eixo cérebro-intestino-microbiota
Você já sentiu "frio na barriga" antes de um evento importante ou perdeu o apetite após uma notícia difícil? Não é impressão sua. Existe uma comunicação bidirecional e direta entre o cérebro e o sistema gastrointestinal.
Pesquisas sobre o eixo cérebro-intestino comprovam que as emoções e o estresse alteram as funções digestivas. Uma visão médica integrativa conecta esses sistemas sem inventar milagres, respeitando o que a ciência já valida: o sofrimento do corpo é real, e os sintomas funcionais não são frutos da imaginação do paciente. Por isso, dizer a alguém que a sua dor "é só emocional" pode ser profundamente invalidante.
O olhar da psicanálise: o significado por trás do sintoma
A psicanálise não substitui a investigação médica, mas propõe uma pergunta diferente. Em vez de investigar apenas "qual é o sintoma", ela busca entender "o que esse sintoma significa para essa pessoa".
Na tradição psicanalítica, conflitos psíquicos inconscientes podem encontrar formas de expressão no comportamento e no próprio corpo. No entanto, compreender o significado de um sintoma não é o mesmo que dizer que a doença foi puramente causada por um conflito emocional.
A nossa história de vida participa de quem somos:
- A criança que aprendeu que não podia chorar;
- A mulher que passou anos reprimindo sentimentos para manter a família unida;
- O homem que cresceu acreditando que pedir ajuda era um sinal de fraqueza;
- A pessoa que viveu um luto e nunca teve espaço para falar sobre ele.
O psicanalista Donald Winnicott desenvolveu reflexões valiosas sobre a relação entre psique e soma (corpo), mostrando que nós não apenas carregamos um corpo, nós vivemos através dele. O corpo registra hábitos, medos, traumas e cansaço. Cuidar dele também é uma forma de começar a escutar a própria história.
O papel da espiritualidade no processo de cura
A espiritualidade acrescenta outra dimensão essencial a essa conversa. Ela não surge como uma explicação mágica para as doenças e nem como substituta dos tratamentos médicos, muito menos para culpar o paciente pelo seu sofrimento. A espiritualidade oferece espaço para perguntas que não cabem em um receituário: Por que estou passando por isso? Onde encontrar forças quando a minha acabou?
Para muitas pessoas, a fé é o ambiente de significado, esperança e reconstrução. A própria Bíblia apresenta o ser humano de forma integral, conectando a saúde do coração com o bem-estar físico. Como está escrito em Provérbios 17:22:
"O coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido seca os ossos."
Tratar a saúde física sem olhar para as dores da alma é cuidar de apenas metade da história. A verdadeira cura floresce quando acolhemos o corpo, deciframos a mente e estendemos o cuidado à totalidade de quem somos.
Referências
Organização Mundial da Saúde (OMS). Constitution of the World Health Organization. A definição de saúde contempla o bem-estar físico, mental e social.
World Health Organization (WHO). Stress. Atualizado em 30 de março de 2026. Aborda os efeitos do estresse sobre a saúde física e mental.
World Health Organization (WHO). Integrated people-centred health services. Diretrizes sobre cuidado integrado e centrado na pessoa.
Ozaniak Strizova, Z. Stress and the Immune System: Insights From Psychoneuroimmunology. Physiological Research, 2026.
Hantsoo, L. et al. Stress Gets into the Belly: Early Life Stress and the Gut Microbiome. Frontiers in Psychiatry, 2021.
Shapira-Berman, O. When Hunger Strikes: Rethinking Kafka's “A Hunger Artist” in Light of Winnicott's Theory of the Psyche-Soma. Psychoanalytic Review, 2019.
Winnicott, D. W. Psycho-somatic illness in its positive and negative aspects. International Journal of Psycho-Analysis, 1966.
American Psychological Association. APA Dictionary of Psychology — Conversion disorder / Functional neurological symptom disorder.
Bíblia Sagrada. Provérbios 17:22; Provérbios 4:23; 1 Reis 19.

