Por Claudia Babo – Psicanalista
O Silêncio que Adoece a Alma
Quem é você quando não está ocupada cuidando das demandas do outro?
O Agosto Lilás é o mês de conscientização pelo fim da violência contra a mulher. Na clínica psicanalítica, no entanto, nós enxergamos as marcas das violências que não deixam hematomas na pele, mas que fragmentam o psiquismo. São as violências sutis: a desvalia, o silenciamento e o apagamento do desejo.
Muitas mulheres chegam ao divã exaustas, queixando-se de um vazio inexplicável. O diagnóstico clínico quase sempre revela a mesma raiz: a renúncia crônica de si mesma. O autocuidado, sob a ótica psicanalítica, não é estética; é a retomada da sua subjetividade e o maior ato de preservação do seu Eu.
O Complexo da "Mulher Perfeita" e a Anulação do Desejo
Historicamente, o feminino foi estruturado sob o mito da doação incondicional. A sociedade exige que a mulher seja a mãe impecável, a esposa dedicada e a profissional incansável.
Na psicanálise, investigamos o preço que se paga por essa fantasia de onipotência — o "dar conta de tudo".
- O Sacrifício como Identidade: Muitas vezes, a mulher só se sente validada e amada quando está sofrendo ou se sacrificando pelo outro.
- O Ganho Secundário Oculto: O papel de mártir traz o reconhecimento externo, mas esconde o medo profundo de olhar para as próprias faltas.
- A Alienação do Eu: Ao viver apenas em função das demandas do ambiente, a mulher perde a capacidade de escutar a própria voz e o próprio desejo.
Quando você não sabe o que quer, você aceita o que o outro decide para você. É nesse terreno que as relações abusivas e tóxicas se instalam de forma silenciosa.
A Linha Tênue entre o Cuidado e a Autoagressão
Freud nos ensinou sobre as forças que regem a nossa mente: a pulsão de vida (ligada à criação, ao amor e ao cuidado) e a pulsão de morte (ligada à autodestruição e à repetição de padrões dolorosos).
Quando uma mulher negligencia sua saúde mental, ignora seus limites e aceita migalhas afetivas, ela está operando sob a pulsão de morte. Deixar-se para depois é uma forma de autoagressão psíquica.
O sintoma — seja ele uma crise de ansiedade, uma depressão crônica ou o esgotamento físico — é o corpo gritando aquilo que a boca não consegue formular em palavras. É o inconsciente exigindo ser escutado.
O Despertar Analítico: O Autocuidado como Pulsão de Vida
Para a psicanálise, iniciar o autocuidado significa fazer as pazes com a sua falta e resgatar o seu Desejo (com "D" maiúsculo). Significa entender que você não precisa ser perfeita para ser amada.
Este resgate exige o desenvolvimento de três movimentos psíquicos essenciais:
1. Sustentar a Culpa de Dizer Não
Dizer "não" para o outro é dizer "sim" para si mesma. No início, a culpa inconsciente vai aparecer. Sustentar esse desconforto é o primeiro passo para se libertar da necessidade de aprovação constante.
2. Romper com a Repetição de Padrões
Por que você costuma aceitar relacionamentos e dinâmicas que te esvaziam? O autocuidado profundo exige olhar para a sua história, compreender suas feridas primitivas e decidir não repetir os traumas do passado.
3. Reservar um Espaço de Escuta Própria
Pode ser o momento da sua análise, a leitura de um livro ou trinta minutos de silêncio diário. Você precisa de um espaço onde a única expectativa a ser atendida seja a sua.
O Alerta Clínico: O Preço Oculto do Silêncio
A verdade que o divã revela todos os dias é desconfortável: aquilo que você não resolve na sua mente, o seu destino transforma em repetição.
Se você não iniciar o seu processo de autocuidado e autoconhecimento hoje, continuará terceirizando a sua felicidade e permitindo que o outro determine o seu valor. Ninguém pode preencher o vazio que é de sua responsabilidade acolher.
Se priorizar não é um ato de egoísmo; é o único caminho para a sua emancipação psíquica. Uma mulher que se conhece e se apossa do seu desejo não se sujeita a lugares que a diminuem. Para refletir: Qual desejo seu você colocou na gaveta
para conseguir manter o sorriso de outra pessoa?
Conclusão: O Convite à Sua Mudança
O Agosto Lilás nos convida a romper o silêncio externo, e a psicanálise nos convida a escutar a verdade interna. Que este texto seja o corte necessário na sua rotina para que você comece, finalmente, a se olhar com o respeito e o cuidado que você merece.
Espaço de Escuta e Partilha
A sua voz importa no divã e aqui também:
Qual padrão você sente que precisa romper para começar a se priorizar hoje?
Nota Importante: Se você se identificou com este texto ou percebe que está em um relacionamento onde sua integridade física ou psicológica está em risco, lembre-se de que você não está sozinha. O autoconhecimento caminha lado a lado com a proteção. Busque redes de apoio familiares, profissionais ou ligue para o Canal 180 (Central de Atendimento à Mulher). Proteger a sua vida é o primeiro e mais urgente passo do seu cuidado.
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Envie este artigo para as mulheres da sua vida que precisam resgatar a própria força e o próprio desejo.Se você sente que é o momento de olhar para essas questões de forma profunda e individualizada, o processo analítico pode ser o seu espaço seguro. Entre em contato para entender como iniciar suas sessões.

