Por Claudia Babo – Psicanalista | CLD Luz de Phoenix
Nos últimos dias, uma boneca em formato de bebê ganhou enorme repercussão nas redes sociais. Conhecida como "Natasha Doll", ela foi inicialmente comercializada como um brinquedo antiestresse, daqueles feitos para serem apertados e voltarem ao formato original.
O problema não estava no brinquedo em si.
O problema começou quando milhares de vídeos passaram a mostrar pessoas espancando, arremessando, perfurando e humilhando a boneca como forma de entretenimento. Em muitos desses conteúdos, a versão negra do brinquedo tornou-se o principal alvo, despertando debates sobre racismo, desumanização e banalização da violência.
Independentemente das diferentes versões sobre a origem da personagem, uma pergunta permanece:
O que leva milhões de pessoas a assistir esse tipo de conteúdo sem se incomodar?
A violência não começa no ato
Na psicanálise aprendemos que a agressividade faz parte da condição humana.
Sentir raiva, frustração ou impulsos agressivos não torna alguém uma pessoa má. O que diferencia uma sociedade saudável é justamente a capacidade de transformar esses impulsos em algo construtivo.
Quando a violência deixa de causar desconforto e passa a provocar risadas, curtidas e compartilhamentos, algo importante muda.
O sofrimento do outro deixa de ser percebido.
Mesmo que aquele "outro" seja apenas uma representação.
Um bebê representa muito mais do que um brinquedo
Desde o nascimento, o bebê simboliza vulnerabilidade, cuidado e proteção.
Nosso cérebro responde automaticamente a essas características. É por isso que rostos infantis despertam empatia em praticamente todas as culturas.
Quando essa imagem passa a ser utilizada para simular agressões como forma de diversão, ocorre uma inversão simbólica.
Aquilo que deveria despertar cuidado passa a despertar entretenimento.
Esse deslocamento pode parecer pequeno, mas revela muito sobre a forma como consumimos conteúdos na internet.
A dessensibilização acontece aos poucos
Ninguém acorda um dia achando normal assistir cenas violentas.
Isso acontece de maneira gradual.
Primeiro vem o vídeo curioso.
Depois o engraçado.
Depois o mais exagerado.
Até que aquilo deixa de causar qualquer impacto emocional.
Esse processo recebe o nome de dessensibilização: quanto maior a exposição repetida à violência, menor tende a ser nossa resposta emocional diante dela.
Não significa que toda pessoa se tornará violenta.
Mas significa que nossa capacidade de estranhamento pode diminuir.
O papel das redes sociais
Os algoritmos não distinguem o que é moralmente bom ou ruim.
Eles identificam aquilo que prende nossa atenção.
Quanto mais uma publicação gera comentários, compartilhamentos e reações intensas, maior tende a ser sua distribuição.
Infelizmente, conteúdos que despertam choque costumam performar muito bem.
Assim, a violência pode deixar de ser apenas um comportamento individual para se transformar em um produto altamente rentável.
O que a psicanálise nos convida a pensar?
Talvez a pergunta mais importante não seja:
"Por que alguém fez isso?"
Mas sim:
"Por que tantas pessoas acharam divertido?"
A resposta não está apenas na personalidade de quem grava os vídeos.
Ela também está na cultura em que vivemos, no modo como consumimos informação e na rapidez com que transformamos sofrimento em espetáculo.
A responsabilidade começa em pequenas escolhas
Cada compartilhamento fortalece um tipo de conteúdo.
Cada visualização informa às plataformas que aquele material merece continuar circulando.
Por isso, antes de reagirmos impulsivamente, vale a pena perguntar:
- Este conteúdo desperta empatia ou apenas curiosidade?
- Estou contribuindo para conscientizar ou apenas aumentando sua audiência?
- O que esse vídeo desperta em mim?
Essas perguntas talvez sejam mais importantes do que qualquer resposta pronta.
A verdadeira saúde emocional
Na CLD Luz de Phoenix acreditamos que saúde emocional não significa eliminar emoções difíceis.
Significa aprender a reconhecê-las, compreendê-las e transformá-las sem que elas se convertam em violência contra nós mesmos ou contra o outro.
Porque uma sociedade saudável não é aquela que nunca sente raiva.
É aquela que nunca perde sua capacidade de sentir compaixão.
Essas perguntas talvez sejam mais importantes do que qualquer resposta pronta.
Toda sociedade revela sua saúde emocional pela forma como trata os mais vulneráveis. Quando a violência se torna diversão, talvez o maior perigo não seja o brinquedo, mas aquilo que deixamos de sentir.
Referências
- FOLHA DE S.PAULO. Boneco negro antiestresse vira alvo de conteúdo sexual e violento na China. Publicado em julho de 2026.
- ECNS – China News Service. Especialistas discutem a repercussão da boneca antiestresse e seus impactos sociais. Publicado em 2026.
- FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. São Paulo: Companhia das Letras.
- FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer.
- WINNICOTT, Donald W. O Brincar e a Realidade.
- FROMM, Erich. Anatomia da Destrutividade Humana.
- ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal.
- BANDURA, Albert. Aggression: A Social Learning Analysis. (Aprendizagem Social da Agressão).
