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Doenças do corpo e dores da alma: quando o sofrimento encontra uma forma de se expressar


Por Claudia Babo

Há dores que aparecem nos exames. Outras aparecem no sono, no apetite, na disposição, nos relacionamentos e na maneira como passamos a viver. Compreender essa relação não significa dizer que toda doença nasce das emoções. Significa reconhecer que ninguém adoece separado da própria história.


Imagine alguém que há meses sente que alguma coisa não está bem.


O sono já não descansa como antes. O corpo parece permanentemente cansado. Surgem dores, alterações no apetite, desconfortos digestivos ou dificuldade de concentração. Essa pessoa procura atendimento, faz exames e, às vezes, recebe uma resposta que deveria tranquilizá-la: “Não encontramos nenhuma alteração importante”.


Ela sai aliviada por um lado, mas confusa por outro. Afinal, se os exames estão bons, por que continua se sentindo mal?


Em outras situações acontece justamente o contrário: existe um diagnóstico concreto, uma doença que precisa de acompanhamento e tratamento, mas ninguém pergunta como aquela pessoa está vivendo tudo aquilo. O exame mostra a doença; não mostra necessariamente o medo, a mudança na rotina, o impacto sobre a família ou a angústia diante do futuro.


É nesse ponto que precisamos ampliar a conversa.


Não para trocar medicina por emoção, nem diagnóstico por interpretações. Mas para lembrar algo aparentemente simples: o ser humano que adoece continua sendo um ser humano inteiro.


A própria Organização Mundial da Saúde defende modelos de cuidado integrados e centrados na pessoa, nos quais as necessidades do indivíduo não sejam reduzidas à doença que ele apresenta.

O que a ciência nos permite dizer sobre corpo e mente


Quando estamos preocupados, assustados ou sob grande pressão, não é apenas o pensamento que reage.


O coração pode acelerar. A musculatura fica tensa. O sono muda. Algumas pessoas perdem o apetite; outras sentem mais fome. O intestino pode funcionar de maneira diferente. Podemos ficar irritados, dispersos ou simplesmente exaustos.


Isso não é uma metáfora.


O estresse é uma resposta natural do organismo diante de desafios e ameaças. Em determinadas situações, ele é útil: ajuda-nos a reagir e a nos adaptar. O problema aparece quando a sobrecarga é intensa ou persistente.


Em março de 2026, a Organização Mundial da Saúde atualizou suas orientações sobre o tema e destacou que o excesso de estresse pode afetar tanto a saúde mental quanto a física, estando associado, entre outras manifestações, a dificuldades para dormir, dores de cabeça, dores no corpo e alterações gastrointestinais.


É importante perceber a diferença entre dizer “o estresse afeta o organismo” e dizer “o estresse causa qualquer doença”.


A primeira afirmação possui ampla sustentação científica. A segunda seria uma simplificação perigosa.

Quando o estresse conversa com o sistema imunológico


Existe uma área de pesquisa chamada psiconeuroimunologia, dedicada justamente às interações entre processos psicológicos, sistema nervoso, hormônios e sistema imunológico.


Uma revisão publicada em julho de 2026 mostrou como os hormônios envolvidos na resposta ao estresse podem interferir na movimentação e atividade de células imunológicas e na produção de mediadores inflamatórios. O efeito, entretanto, não é igual para todas as pessoas: depende do tipo e da duração do estresse, além de características individuais, ambientais, genéticas e epigenéticas.


Esse detalhe é fundamental.


Não existe uma fórmula do tipo:


emoção X = doença Y.


Nosso organismo é muito mais complexo do que isso.


Quando alguém afirma, por exemplo, que uma determinada mágoa “provoca câncer” ou que uma doença autoimune surgiu porque a pessoa “não perdoou alguém”, transforma uma relação complexa entre saúde e experiência humana em uma explicação sem sustentação suficiente — e ainda pode colocar sobre quem está doente uma culpa que não lhe pertence.

E o intestino? Ele realmente “conversa” com o cérebro?


Sim, embora essa relação também seja frequentemente exagerada nas redes sociais.


Cérebro e trato gastrointestinal mantêm comunicação bidirecional por vias nervosas, hormonais, imunológicas e metabólicas. O chamado eixo intestino-cérebro tornou-se uma área importante de pesquisa.


Uma revisão clínica publicada em 2026 observa que um dos exemplos mais claros dessa comunicação é justamente a influência do estresse sobre funções gastrointestinais, incluindo motilidade e secreção. A pesquisa nessa área avançou bastante, embora muitas aplicações envolvendo microbiota e saúde mental ainda precisem ser interpretadas com cuidado.


Talvez você mesmo já tenha percebido essa conversa no cotidiano: o “frio na barriga” antes de uma situação importante, a falta de apetite depois de uma notícia difícil ou aquele intestino que parece reagir justamente nos períodos de maior ansiedade.


O corpo participa daquilo que vivemos.


Mas isso ainda não significa que toda manifestação física tenha origem emocional.

Então, quando os exames estão normais, a dor não existe?


Existe.


Essa talvez seja uma das experiências mais frustrantes para quem sofre: ouvir que, como determinado exame não mostrou uma alteração capaz de explicar o sintoma, “não há nada”.


Um exame normal é uma informação clínica importante e muitas vezes uma ótima notícia. Mas ele não transforma automaticamente a experiência da pessoa em imaginação.


Dor é uma experiência real. Cansaço é real. Tontura, desconforto, alterações gastrointestinais e outros sintomas também podem ser reais mesmo quando sua explicação não aparece imediatamente em um exame.


Por isso, “é só emocional” raramente é uma boa maneira de acolher alguém.


O melhor caminho é continuar investigando quando necessário e, ao mesmo tempo, considerar que fatores físicos, psicológicos, comportamentais e sociais podem participar da experiência de saúde daquela pessoa.


E é justamente aqui que podemos mudar de lente.

O que a psicanálise pergunta quando encontra um sintoma


A medicina e a psicanálise não precisam responder à mesma pergunta.


Diante de uma dor, a medicina precisa investigar causas, mecanismos, riscos e possibilidades de tratamento.


A escuta psicanalítica pode acrescentar outras questões: como essa pessoa vive o que está acontecendo? O que mudou em sua vida? O que aquele adoecimento despertou? Que conflitos, perdas, medos ou relações fazem parte de sua história?


Isso não significa procurar uma “causa emocional escondida” para cada doença.


Significa reconhecer que o sofrimento também possui uma dimensão subjetiva.


Pense em duas pessoas que recebem exatamente o mesmo diagnóstico. Uma pode encontrar apoio na família, adaptar a rotina e preservar esperança. A outra pode viver o diagnóstico como uma ruptura profunda, sentir medo de depender dos outros ou perceber que perdeu uma parte importante da própria identidade.


A doença pode ter o mesmo nome.


A experiência de adoecer nunca é exatamente a mesma.

Há coisas que aprendemos a calar


Algumas pessoas cresceram ouvindo que chorar era fraqueza.


Outras aprenderam cedo a cuidar de todos e quase nunca foram cuidadas.


Há quem tenha passado anos dizendo “está tudo bem” porque parecia não haver espaço para dizer o contrário. Há perdas que puderam ser vividas e outras que precisaram ser engolidas porque a vida continuou exigindo trabalho, filhos, contas e responsabilidades.


Nem toda experiência difícil se transforma em doença física. É importante repetir isso.


Mas aquilo que vivemos participa da maneira como nos relacionamos conosco, com outras pessoas e também com o próprio corpo.


A psicanálise oferece justamente um lugar para a pergunta que nem sempre cabe na consulta destinada a investigar um órgão:


“Como tem sido viver dentro da sua própria história?”


Às vezes, poder falar sobre isso já muda a relação que a pessoa estabelece com seu sofrimento.

E onde entra a espiritualidade?


Há um momento em que algumas perguntas deixam de ser apenas clínicas.


“Por que isso aconteceu comigo?”


“Como vou continuar?”


“O que faço com a vida que mudou?”


“Existe algum sentido depois dessa perda?”


A medicina não precisa responder a todas essas perguntas. Nem a psicanálise.


Para muitas pessoas, é na espiritualidade que elas encontram uma linguagem para lidar com esperança, finitude, pertencimento, perdão, propósito e reconstrução.


Isso não transforma fé em tratamento médico.


Uma pessoa pode orar e precisar de antidepressivo. Pode ter uma espiritualidade profunda e precisar de psicoterapia. Pode confiar em Deus e realizar uma cirurgia. Uma coisa não precisa excluir a outra.


Aliás, há uma passagem bíblica que sempre me chama atenção quando penso em cuidado integral.

Elias: quando antes da resposta vieram alimento e descanso


Em 1 Reis 19, depois de um período de enorme tensão, Elias chega ao limite. Está exausto, foge, isola-se e chega a desejar a própria morte.


A resposta que recebe é interessante.


Antes de um longo discurso espiritual, Elias dorme.


Depois recebe alimento e água.


Descansa novamente.


Come outra vez.


Só depois a história segue para o encontro espiritual que tantas pessoas conhecem.


Podemos ler essa passagem sem transformá-la em protocolo de saúde. Ainda assim, existe nela uma imagem muito humana: às vezes, alguém precisa ser alimentado, descansar e ser acolhido antes de conseguir elaborar grandes respostas sobre a própria vida.


Também encontramos em Provérbios 17:22 a conhecida expressão de que “o coração alegre é bom remédio”.


Não é uma prescrição médica e não deveria ser usada dessa forma. É uma imagem sapiencial sobre algo que a humanidade percebe há muito tempo: nossa vida interior e nossa experiência corporal não são mundos completamente independentes.

O perigo de transformar sofrimento em culpa


Aqui precisamos ser muito claros.


Este artigo não está dizendo que uma pessoa desenvolveu câncer porque ficou triste, que diabetes surgiu por causa de mágoas, que doenças autoimunes são resultado da falta de perdão ou que depressão representa falta de fé.


Também não estamos dizendo que pensar positivamente cura doenças ou que toda dor contém alguma “mensagem do universo” que precisa ser decifrada.


Doenças podem envolver fatores genéticos, biológicos, ambientais, infecciosos, sociais e comportamentais, entre muitos outros. Em determinadas condições, aspectos psicológicos também podem influenciar sintomas, evolução, percepção da dor, adesão ao tratamento e qualidade de vida.


Isso é muito diferente de responsabilizar emocionalmente alguém por ter adoecido.


Se uma abordagem chamada “integrativa” abandona diagnóstico, tratamento baseado em evidências ou acompanhamento profissional para explicar tudo por emoções, ela deixou de integrar. Apenas substituiu um reducionismo por outro.

Talvez cuidar de uma pessoa inteira seja mais simples do que parece


Imagine alguém tratando uma doença crônica.


Naturalmente precisamos saber como estão os exames, quais medicamentos utiliza, se o tratamento está funcionando e quais sintomas precisam ser acompanhados.


Mas talvez também valha perguntar como essa pessoa está dormindo.


Se consegue se alimentar adequadamente.


Se continua trabalhando.


Se possui alguém com quem contar.


Se sente medo.


Se a doença mudou sua relação com o próprio corpo.


Se ainda encontra algum prazer na rotina.


Se está conseguindo falar sobre aquilo que vive.


Nenhuma dessas perguntas substitui o tratamento da doença.


Elas simplesmente lembram que existe alguém vivendo aquele diagnóstico.


É justamente esse deslocamento que aparece no cuidado centrado na pessoa defendido pela OMS: organizar o cuidado considerando necessidades abrangentes, preferências e participação do indivíduo, em vez de estruturar todo o sistema exclusivamente ao redor das doenças.

O corpo não precisa ser nosso inimigo


Quando alguma coisa deixa de funcionar como gostaríamos, é fácil começar uma guerra contra o próprio corpo.


“Meu corpo me traiu.”


“Minha cabeça não funciona.”


“Eu deveria conseguir controlar isso.”


Talvez possamos trocar parte dessa cobrança por curiosidade e cuidado.


O que precisa ser investigado?


O que precisa ser tratado?


O que precisa mudar na rotina?


O que eu não estou conseguindo sustentar sozinho?


De que ajuda preciso agora?


Essas perguntas não prometem cura milagrosa. Oferecem algo talvez mais importante: um caminho de cuidado que não obriga a pessoa a escolher entre corpo e mente, entre tratamento e acolhimento, entre ciência e sentido.

Quando deixamos de perguntar apenas “onde dói?”


Talvez a diferença entre tratar uma doença e cuidar de alguém comece numa mudança muito pequena de pergunta.


Precisamos continuar perguntando onde dói, há quanto tempo, com que intensidade e quais podem ser as causas.


Mas podemos acrescentar:


“Como tem sido para você viver tudo isso?”


Nem toda doença do corpo nasce de uma dor emocional.


Nem toda dor emocional se transforma em doença.


E nem tudo aquilo que sentimos precisa receber uma explicação.


Ainda assim, corpo, mente, comportamento, relações e história acontecem dentro da mesma vida. É essa pessoa inteira que chega até nós quando procura cuidado.


Na CLD Luz de Phoenix, é essa compreensão que orienta nossa proposta de Saúde Integrativa para corpo, mente e comportamento: olhar para aquilo que precisa ser investigado e tratado sem perder de vista quem está vivendo essa experiência.


Porque um diagnóstico pode explicar muito sobre uma doença.


Mas, para conhecer o sofrimento, ainda precisamos conhecer a pessoa.


Uma observação importante


Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por profissionais de saúde. Sintomas novos, persistentes, intensos ou preocupantes devem ser avaliados adequadamente. Saúde integrativa significa somar perspectivas de cuidado, e não abandonar tratamentos necessários.


Referências essenciais


World Health Organization (WHO). Stress. Atualização de 30 de março de 2026.


World Health Organization (WHO). Integrated people-centred care. Framework para serviços de saúde integrados e centrados na pessoa.


Ozaniak Strizova Z. Stress and the Immune System: Insights From Psychoneuroimmunology. Physiological Research. 2026;75(3):399–427.


Quigley EMM. The Gut-Brain Axis — From Science to Clinical Practice. Gastroenterology and Hepatology Advances. 2026;5(7):100975.


Winnicott DW. Psycho-somatic illness in its positive and negative aspects. International Journal of Psycho-Analysis. 1966;47:510–516.


Bíblia Sagrada. Provérbios 17:22 e 1 Reis 19.

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